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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Matteo Ricci, os jesuítas e a questão dos ritos (fim)

Em Nanquim, Mons. Tournon publicou um decreto que renovava a condenação da igreja de Roma contra os ritos chineses, ameaçando todos os missionários que se conformassem às decisões de Kangxi de excomunhão (Decreto de Nanquim). A publicação deste decreto, que retomava as decisões já promulgadas pela Santa Sé em 20 de novembro de 1704, provocou a ira do imperador que convidou Mons. Tournon a se retirar em Cantão e, em seguida, a Macau, onde deveria esperar a volta de dois jesuítas enviados a Roma pelo imperador Kangxi para tentar convencer o papa a revogar a proibição dos ritos.

Em Macau, Mons. Tournon foi preso pelas autoridades portuguesas com a acusação de ter agido junto ao imperador chinês sob a autorização exclusiva de Roma, quando, segundo as leis do padroado de Portugal, qualquer missão diplomática católica deveria ser intermediada pelo governo português.
Trata-se de episódio significativo porque mostra as dificuldades da Santa Sé para estabelecer relações diretas com a China.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Matteo Ricci, os jesuítas e a questão dos ritos (parte 4)

A intransigência de Roma contradisse as instruções que, no mesmo período, exatamente em 1659, Propaganda Fide apresentara a todos os missionários: “Não usem nenhum meio de persuasão para induzir aqueles povos a mudar os seus ritos, os seus hábitos, os seus costumes, ao menos que não estejam abertamente contra a religião e os bons costumes. O que existe, de fato, de mais absurdo do que transplantar na China, a França, a Espanha, a Itália ou qualquer outro país da Europa?

Não é isto que vocês devem introduzir, mas a fé, que não rejeita os ritos e os costumes de nenhum povo, contanto que não sejam maus, mas quer, ao contrário, salvaguardá-los e consolidá-los... Não façam, portanto, comparações entre os usos locais e os usos europeus; procurem com todo vosso empenho acostumar-vos a eles. Admirem e elogiem tudo que merece elogios; se algo não o merece, não devem certamente exaltá-lo como fazem os aduladores, mas devem ter a prudência de não julgá-lo ou ao menos de não condená-lo sem motivo”.

Faltou confiança nas intuições dos missionários jesuítas que tinham experiência direta e conhecimento profundo da cultura chinesa. As decisões pontifícias distanciaram-se da posição da própria Propaganda Fide e resultaram numa derrota da experiência missionária deste período.

O papa Clemente 11 enviou à China Mons. Charles-Thomas Maillard de Tournon. A sua missão era aquela de explicar e fazer respeitar as decisões do Vaticano em relação à Questão dos Ritos. Admitido à corte imperial, em um primeiro momento, o imperador Kangxi acolheu Mons. Tournon com uma certa cortesia, mas, quando teve conhecimento das comunicações de Roma contra os ritos chineses, fez reconduzir Mons.Tournon a Nanquim e ordenou que daquele momento em diante os missionários deveriam providenciar um piao, isto é, uma permissão emitida pelas autoridades civis para se deslocar no interior da China que seria dada somente aos missionários que tivessem declarado de aceitar o ponto de vista do imperador. Caso não quisessem, seriam expulsos do império.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Matteo Ricci, os jesuítas e a questão dos ritos (parte 3)

Alguns missionários, principalmente dominicanos e franciscanos, que evangelizavam com métodos intransigentes, porque culturalmente ligados a modelos europeus, escreveram à Santa Sé comunicando suas opiniões contrárias aos métodos usados por Matteo Ricci e outros jesuítas, afirmando que a fé cristã corria risco, porque os jesuítas estavam permitindo aos católicos chineses de praticar os ritos aos ancestrais.

Estes ritos eram homenagens que os chineses dirigiam aos próprios defuntos. Todos os chineses guardavam nas suas casas tabuinhas com os nomes dos seus defuntos e a eles dirigiam saudações, acendiam incensos, ofereciam frutas, perfumes... As mesmas homenagens eram reservadas a Confúcio. Tudo isso era a manifestação da virtude da “piedade filial” que estava à base da organização familiar e da sociedade civil chinesa.

Um outro ponto de litígio era sobre a escolha da palavra chinesa para a definição de Deus. Três eram as palavras usadas no tempo de Matteo Ricci: Tian Zhu (Senhor do Céu), Shang-di (Senhor Soberano) e Tian (Céu). Esta última denominação foi usada pelo imperador Kangxi em uma inscrição que ele mesmo tinha redigido em grandes ideogramas com o objetivo de doá-la aos Jesuítas. Estes tinham colocado a inscrição na capela de sua casa. A controvérsia era se estas palavras chinesas pudessem ou não expressar a natureza de Deus. Depois de vários estudos por parte de Roma, o uso das denominações Shang-di e Tian foi proibido.

Em 1645, a igreja católica pronunciou-se pela primeira vez contra os ritos aos ancestrais definindo-os como atos supersticiosos, inaceitáveis para quem queria se converter ao catolicismo. Os jesuítas tentaram esclarecer que esses ritos eram um simples e amoroso tributo aos pais e ascendentes defuntos, consequência da virtude da piedade filial ensinada aos chineses por Confúcio e que nada tinham a ver com superstição. Mas ninguém quis escutá-los. Nem um ato oficial do imperador Kangxi, no qual ele afirmava que as honras prestadas a Confúcio e aos ancestrais eram puramente civis, conseguiu convencer Roma a abandonar a sua atitude intolerante.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Matteo Ricci, os Jesuítas e a Questão dos Ritos (parte 2)

A chegada de Matteo Ricci, em 1582, marcou uma verdadeira revolução quanto ao método de aproximação ao povo chinês. Em Macau, por exemplo, naquele período, os chineses convertidos eram obrigados a escolher nomes portugueses, vestir roupas portuguesas e adotar os costumes de Portugal. Matteo Ricci mergulhou diretamente no estudo da língua chinesa, ao contrário de outros missionários, que usavam, até então, o método de assimilação cultural dos povos evangelizados. Antes de entrar em Pequim, passou muitos anos no interior da China, aprofundando o estudo da língua, das tradições locais, vestindo o hábito confuciano e fazendo-se “chinês com os chineses”.

Mudou o seu nome para Li Madou. Inculturou-se. Valorizou os costumes, a cultura, os valores e as tradições chinesas, evidenciando o que mais os aproximava. Humanista, Matteo Ricci conseguiu abrir um diálogo entre duas civilizações, oferecendo os seus conhecimentos de letrado e matemático. Escreveu e traduziu numerosas obras em língua chinesa. Quando morreu, em 1610, o imperador Wanli concedeu um terreno para a sua sepultura. Esta foi a primeira vez em toda a história da China que a um estrangeiro foi permitido o sepultamento na capital do império.

O período que seguiu a morte de Ricci foi menos feliz. Os missionários encontraram diversos obstáculos em seu caminho. Além das perseguições periódicas, mais nocivas aos objetivos da evangelização foram as rivalidades entre as próprias ordens religiosas, principalmente entre os franciscanos e os jesuítas.

Com a queda da dinastia Ming, derrotada em 1644, e o advento da dinastia Qing, o cristianismo encontrou no imperador Kangxi um importante aliado. Com um decreto de 1692, Kangxi elogiou os missionários europeus, agradecendo-os pelos seus serviços e definindo-os homens de paz. Neste mesmo documento, ele comunicava a sua decisão de salvaguardar todos os templos dedicados ao Senhor do Céu (Tianzhu), o Deus dos cristãos, e de autorizar todos aqueles que queriam adorar este Deus a participar das cerimônias que os cristãos celebravam.

Este decreto fazia parte de uma tentativa de reformas que aproximariam a China do Ocidente, em busca da modernização do império chinês.
Infelizmente, a Questão dos Ritos rompeu esta feliz amizade entre os representantes da igreja católica e a corte chinesa.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Matteo Ricci, os Jesuítas e a Questão dos Ritos (parte 1)

No ano de 2010, será celebrado o quarto centenário da morte de Matteo Ricci, jesuíta italiano que viajou para China e ali revolucionou os métodos de evangelização usados até então. Mestre do diálogo, conseguiu, de fato, estabelecer relações de amizade e confiança com o imperador e o povo chinês, atuando o que chamamos hoje de inculturação, da mensagem evangélica, na cultura chinesa. Tal sucesso, porém, provocou a revolta dos outros missionários que, provavelmente por inveja, denunciaram, à Santa Sé, os métodos de Matteo Ricci considerados por tais opositores como quase heréticos. Surgiu, assim, a conhecida Questão dos Ritos, que comprometeu o diálogo entre a igreja católica e o mundo chinês.

Os missionários jesuítas chegaram no Oriente levados por navios portugueses, na dupla veste de enviados da Coroa e núncios do papa. Havia na época o sistema do padroado por parte dos reis de Portugal e Espanha que possuíam todos os direitos sobre as missões, inclusive o de nomear bispos e erigir dioceses.
Em veste de enviado pontifício e vigário-geral da Companhia de Jesus, chegou em Macau, em 1578, o missionário Alessandro Valignano, que recolheu o legado deixado por Francisco Xavier, morto às portas chinesas em 1552. Valignano procurou mudar o estilo coercitivo de evangelização adotado pelos missionários da época e tentou livrar-se do poder político que acompanhava os padroados.

Naquele período, a igreja católica começava a perceber que a estreita ligação entre a evangelização e os padroados não era benéfica à evangelização na Ásia. Por meio da criação de Propaganda Fide, a Santa Sé tentou separar as competências de um e de outro. Os primeiros jesuítas, como Valignano, Ruggieri e, em seguida, Matteo Ricci, adotaram as novas diretrizes de aprender antes de tudo a língua e os costumes chineses.