quarta-feira, 16 de julho de 2008

A genialidade de Nicolas Sarkozy

No domingo passado, aconteceu em Paris o lançamento de uma nova organização internacional, inspirada no modelo da União Européia: a União pelo Mediterrâneo. Foi uma iniciativa do presidente francês, Nicolas Sarkozy, em favor da cooperação e da paz mundial. Já no dia após a sua eleição, em maio do ano passado, ele anunciou o sonho de reunir os países banhados pelo Mediterrâneo – os da União Européia, da África e do Oriente Médio - para construir um espaço de segurança, solidariedade e justiça; lugar de discussão para resolver os grandes desafios da mudança climática, do acesso à água e energia, o problema da migração, o diálogo entre as civilizações, numa região estrategicamente importante do ponto de vista político e econômico. No sul do Mediterrâneo originam-se ameaças à paz, e um fluxo continuado de imigração. Mas também é de lá a metade das importações de energia.

Desde a antiguidade, a região do Mediterrâneo foi espaço de encontro entre três continentes: a Europa, a África e a Ásia. Foi o teatro privilegiado das grandes civilizações: da civilização da Babilônia, à civilização grega, à romana e de intensas relações comerciais. Lugar de encontro, portanto, mas, também, de desencontros.

Ainda hoje, o conflito entre Israel e Palestina é uma das maiores preocupações para a estabilidade desta parte do mundo. Foi justamente a vontade de contribuir para a resolução dos conflitos e das tensões internacionais nesta área, que levou o presidente francês a propor a criação desta organização. Pelo número de chefes de estado e de governo que aderiram à iniciativa podemos deduzir que a França não é a única a desejar o restabelecimento de uma paz duradoura na região. Foram bem 43 os países que aceitaram o convite francês para participar do lançamento da primeira cúpula da União pelo Mediterrâneo. São os 27 da União Européia, junto com Argélia, Egito, Israel, Jordânia, Líbano, Marrocos, Mauritânia, Síria, Tunísia, Turquia, Albânia, Croácia, Bósnia-Erzegovina, Montenegro, Mônaco, além da participação do Presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP).

A abertura da cúpula foi premiada com dois acontecimentos históricos: o primeiro, o aperto de mão entre o presidente libanês Suleiman e o presidente da Síria, Bashar al Assad, ato este que abriu a estrada para a retomada das relações diplomáticas entre os dois países. Os dois presidentes anunciaram a abertura de suas respectivas embaixadas em Damasco e Beirute. Este avanço diplomático marcou o fim de anos de isolamento internacional do governo da Síria, acusado de ter sido o mandante do assassínio do ex-primeiro ministro libanês Hariri, morto em 2005.

Outro evento histórico, realizado com a mediação francesa, foi o encontro entre o presidente palestino Mahmoud Abbas, conhecido também com o nome de Abu Mazen, e o primeiro ministro de Israel, Ehud Olmert. Após a conclusão do encontro, no qual Israel prometeu a liberação de um grupo de presos palestinos, Olmert e Abu Mazen pronunciaram-se positivamente sobre um possível acordo de paz.

Olmert afirmou que Israel e os palestinos nunca estiveram tão próximos de um acordo de paz. De sua parte, o presidente da Autoridade Nacional Palestina sublinhou que o acordo de paz entre eles é a base fundamental para alcançar a estabilidade mundial, expressando o desejo que, com a ajuda da França, se possa chegar à paz antes do final do ano.

Com estas felizes premissas, a iniciativa de Sarkozy ganhou ainda mais força. Logicamente, os apertos de mão e as promessas não são suficientes para garantir efetivas mudanças nos conflitos. O ceticismo e a desconfiança continuam. Se pensarmos no caso de Israel e da Palestina, logo se percebe que a vontade política de seus governantes deve ser acompanhada de uma mudança radical nas próprias populações, acostumadas a alimentar o ódio e o desejo de vingança. Contudo, como afirmou Sarkozy, “o pior é não fazer nada, deixando espaço para as injustiças e exasperações dos povos”. Ocorre lutar, e lutar juntos. Iniciativas como essas, demonstram que, não obstante os conflitos e as tensões internacionais, o mundo tende à unidade.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Ingrid Betancourt - um sorriso desconcertante

No dia 2 de julho, Ingrid Betancourt, refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), foi finalmente libertada após 6 anos e 4 meses de cativeiro. Mérito de uma espetacular operação militar do governo da Colômbia. As imagens de sua chegada e as suas primeiras palavras emocionaram o mundo. Surpreenderam o rosto sereno, o sorriso meigo e, ao mesmo tempo, a explosão da força vital de uma mulher que conseguiu vencer uma batalha que parecia invencível. Tais imagens contrastavam com suas últimas fotos, que a retratavam doente na selva, aparentemente vencida, fechada num silêncio desesperado. Para ela e os outros 14 reféns, o dia 2 de julho representou o fim de um pesadelo. Destes 14 reféns, três são americanos, os outros são militares colombianos, reféns havia cerca de 10 anos. Um destes, que era também enfermeiro, cuidou de Ingrid durante a fase aguda de sua doença. Em meio a violências físicas e psicológicas praticadas pelos guerrilheiros, a solidariedade entre os reféns sobreviveu. No período em que ela não conseguia mais se alimentar, o soldado enfermeiro cuidou dela de uma maneira extraordinária. Ingrid contou que ele a alimentava da mesma forma que uma mãe faria com a própria criancinha, convencendo-a a comer com a seguinte frase: “Uma colher para Melanie, uma para Lorenzo...”. Melanie e Lorenzo são os filhos de Ingrid, hoje adultos, e que, na época de seu seqüestro, estavam com 16 e 13 anos respectivamente. Seus filhos conseguiram convencer a diplomacia francesa a pressionar o governo colombiano em favor da libertação de Ingrid. Nos últimos anos encontraram um forte aliado em Nicolas Sarkozy. Graças ao apoio dos filhos e da mãe de Ingrid, que todos os dias lhe enviava mensagens via rádio, encorajando-a a não desistir, Ingrid conseguiu lutar momento após momento contra a tentação de desistir, de se deixar morrer. “A morte é a companheira mais fiel de um refém, a tentação do suicídio é cotidiana”, afirmou ela nestes primeiros dias. A vida recomeçou e pelo, que se percebe de suas primeiras entrevistas, recomeçou para valer. Por enquanto, seu primeiro objetivo é recuperar o tempo perdido com os filhos, descansar com eles e com sua família, viajar pela França, onde ela viveu por mais de dez anos. Na Itália, será recebida pelo papa Bento XVI. Ingrid afirmou que sua libertação é um milagre de Nossa Senhora, e agradeceu-a na Capela da Virgem Milagrosa, em Paris. Além do apoio de seus familiares, ela afirmou ter conseguido sobreviver graças à fé, acreditando sempre no amor de Deus. A impressão deixada por uma mulher que é frágil e forte ao mesmo tempo é a de uma heroína, como Nelson Mandela, ao feminino. Ela declarou que após o descanso necessário para revigorar as forças físicas e psíquicas, seu objetivo é voltar à política para servir ao povo colombiano. Quer retomar sua luta política, interrompida com seu seqüestro em novembro de 2002, quando ela disputava a presidência da República da Colômbia. Disse que lutará pela libertação dos reféns que ficaram nas mãos dos guerrilheiros.

Durante os anos de seu cativeiro, a Colômbia alcançou maior estabilidade e segurança. O governo de Álvaro Uribe, baseado na linha dura contra a guerrilha das Farc, ganhou a aprovação de 80% da população colombiana. Segundo analistas políticos colombianos, as Farc estão perdendo força. Fontes oficiais relatam que mais de 9000 combatentes das Farc abandonaram a guerrilha nos últimos anos. A morte de seus chefes mais importantes e a perda de reféns estrategicamente relevantes - como Ingrid Betancourt e os três americanos libertados com ela – são sinais importantes de enfraquecimento dos guerrilheiros. Mas a luta deve continuar e Ingrid quer retomar seu lugar no cenário político colombiano. Ela conquistou o carinho e o apoio do povo colombiano. Aliás, o mundo inteiro parece ter exultado à notícia de sua libertação. A imagem desconcertante do sorriso gracioso de Ingrid Betancourt após tantos anos no cativeiro parece ter penetrado no coração do mundo.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Nelson Mandela - a dignidade acima de tudo

Na sexta-feira passada, dezenas de artistas internacionais homenagearam Nelson Mandela em um show no Hyde Park, em Londres. Mais de 50 mil pessoas participaram. Ao receber os parabéns pelo seu nonagésimo aniversário, o líder sul-africano comoveu-se.

Certamente, diante da homenagem de tantas pessoas, Mandela deve ter relembrado sua vida e as dificuldades pelas quais passou nestes 90 anos.

Nelson Mandela nasceu em 1918, numa família nobre de sua tribo. Quando ficou órfão do pai, aos 12 anos, foi entregue aos cuidados do chefe da tribo. Aos 22 anos, para livrar-se de um casamento combinado, fugiu de casa mudando-se para Johannesburg. Formou-se em direito. A partir daí, sua história pessoal começa a entrelaçar-se com a tumultuosa história de seu país: a África do Sul. Como todas as nações africanas, a África do Sul foi sujeita à colonização européia: os holandeses primeiro, substituídos, depois, pelo Reino Unido. Em 1911, a minoria branca, constituída por descendentes de britânicos e Afrikaneers (descendentes dos imigrantes holandeses), promulgou uma lei conhecida como “Ato das Terras Nativas”, que consolidou seu poder sobre a população negra. Esta lei obrigava os negros a viverem em reservas especiais, cuja extensão ocupava somente 13% do território. O resto das terras (87%) seria ocupado pela minoria branca. Era a semente do Apartheid (regime de segregação racial da minoria branca em relação aos negros) que se oficializou em 1948, com a vitória do Partido Nacionalista. O regime do Apartheid negava à população negra o direito de participar da vida política (nas eleições de 1948, votaram somente os brancos). Os negros ficaram excluídos do acesso à propriedade das terras, além de serem obrigados a viver em regiões residenciais segregadas. Casamentos entre raças diferentes também eram proibidos.

Nelson Mandela, já em 1942, uniu-se ao partido de oposição, o Congresso Nacional Africano (CNA), para combater pelos direitos de seu povo. Junto com um amigo advogado, começou a dar assistência legal gratuita ou a baixo custo aos negros que não podiam pagar um advogado. Os primeiros anos de sua luta política foram inspirados nos princípios da não-violência do indiano Gandhi. Contudo, diante do massacre de Sharpeville, em 21 de março de 1960 – quando a polícia sul-africana matou 69 participantes de uma manifestação pacifista, e feriu outras 180 pessoas –, Mandela decidiu aderir à luta armada. Foi nomeado comandante da força paramilitar da oposição. Liderou ações de sabotagem contra as forças governamentais que baniram o partido de oposição, CNA, e os grupos contra o apartheid.

Em 1962, Nelson Mandela foi preso por sabotagem e conspiração. Em 1964, foi condenado à prisão perpetua. Na década de 1970, o Partido Nacionalista recrudesceu as políticas anti-raciais. A população negra foi separada, classificada em grupos étnicos e confinada em territórios distantes das cidades, os chamados bantustões. Desta forma, o governo tentava afastar os negros da educação ocidental, garantindo mão-de-obra para as indústrias dos brancos. Da prisão, Nelson Mandela continuou encorajando as forças de oposição. Ele tornou-se símbolo da luta contra o Apartheid, não somente na África do Sul, mas no mundo todo. Mantendo sua integridade moral, em 1970 recusou a revisão da pena e, 15 anos depois, não aceitou a liberdade condicional, pois seria obrigado a renunciar à sua luta contra a segregação racial.

Em 1989, a eleição de Frederik de Klerk marcou o início de algumas mudanças no país. De Klerk mostrou-se sensível às pressões internacionais que pediam insistentemente a libertação de Nelson Mandela. Em 1990, o presidente assinou a revogação das leis anti-raciais e a autorizou a libertação de Nelson Mandela. Quatro anos depois, em 1994, foram realizadas as primeiras eleições multirraciais da história da África do Sul. Nelson Mandela foi eleito presidente, o primeiro presidente negro do país.

Após décadas de isolamento diplomático internacional, a África do Sul tornou-se um dos países estrategicamente mais importantes do cenário internacional. Graças, também, ao trabalho e exemplo de um homem chamado Nelson Mandela.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Tragédia política no Zimbábue

O Zimbábue, localizado no sul da África, está atravessando um dos períodos mais tumultuosos de sua história. Colonizado pelo Reino Unido em 1888, recebeu o nome de Rodésia do Sul, em honra do explorador inglês Cecil Rodhes. Por décadas, o Reino Unido desfrutou o ouro e outros minérios preciosos de seu território. Em 1980, em ocasião da proclamação de sua independência, o país adotou o nome de Zimbabwe ou Zimbábue. Hoje, este país - conhecido no passado como o celeiro da África e grande exportador de tabaco de qualidade -, apresenta a mais alta inflação do planeta, 160.000%, e o maior índice de desemprego, com mais de 80%. Hospitais e escolas não funcionam mais. A população depende inteiramente de ajudas humanitárias. O responsável por tal colapso econômico é o atual ditador Robert Mugabe, que governa o país há 28 anos, ou seja, desde o ano de sua independência. No final do mês de março, a sua ditadura parecia ter chegado à reta final. A vitória da oposição já teria ocorrido no primeiro turno das eleições, em 29 de março, com a perda de Mugabe da maioria no Parlamento em favor do Movimento de Mudança Democrática (MdC), liderado por Morgan Tsvangirai. A vitória do opositor e o fim da ditadura pareciam iminentes. Mas, segundo a oposição, houve fraudes que permitiram o segundo turno. Segundo as fontes governativas, Mugabe obteve 43,2% dos votos e Tsvangirai 47,9%, não alcançando a maioria necessária para a definição no primeiro turno. A oposição afirmou, ao contrário, que Tsvangirai obteve 50, 3% dos votos, vencendo o atual presidente, acusando o governo de fraude na apuração.

Após a divulgação dos resultados eleitorais, a violência tomou conta do país, sobretudo na capital, Harare. O líder do MdC informou que a polícia invadiu a sede do partido prendendo mais de 60 pessoas, entre as quais mulheres e crianças. O próprio Tsvangirai foi preso por três vezes em 10 dias sem acusações fundamentadas. As milícias do governo prenderam também jornalistas ocidentais que se encontravam no país para seguir a campanha eleitoral. Além disso, a oposição acusou o governo de ser responsável pela morte de mais de 90 de seus partidários.

Nesta segunda-feira, dia 23, diante da crescente onda de violência, o líder do Movimento pela Mudança Democrática decidiu renunciar à corrida eleitoral faltando somente quatro dias para o segundo turno. Ele afirmou que as atuais condições do país não permitem eleições livres e regulares, pois o presidente Mugabe declarou guerra à oposição avisando que as balas iriam substituir as cédulas eleitorais. Tsvangirai afirmou não ter a coragem de pedir aos seus eleitores de votar contra o atual governo, pois isso significaria pedir que arriscassem suas vidas.

Após a declaração de renúncia, o líder da oposição pediu refúgio à embaixada holandesa, que o acolheu imediatamente. Da embaixada da Holanda, Tsvangirai lançou um apelo à comunidade internacional para que impeçam as votações do segundo turno previstas para o dia 27 de junho. De fato, o governo - não obstante a renúncia do líder de oposição -, declarou que as eleições vão acontecer mesmo tendo um único candidato. A comunidade internacional respondeu prontamente ao apelo de Tsvangirai. O Conselho de Segurança da ONU, por unanimidade condenou a ditadura de Mugabe pedindo ao governo do país de adiar as eleições marcadas para o dia 27 de junho. Aliás, foi a primeira decisão unânime do Conselho de Segurança da ONU. O debate liderado pelo governo inglês conseguiu vencer as resistências da África dos Sul, da Rússia e da China que recusavam uma linguagem dura demais. O texto foi reescrito mais vezes até chegar à unanimidade. Agora, o ditador octogenário (84 anos!) e o seu entourage militar deverão decidir se enfrentar ou não a oposição de Tsvangirai e de toda a comunidade internacional, unanimemente unida (coisa rara) contra a violência de Mugabe.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Nova crise na União Européia

Há poucos dias uma nova crise abriu-se no processo de integração européia. O povo irlandês, convidado a expressar seu consentimento ou sua oposição à adesão da Irlanda ao Tratado de Lisboa, optou pelo não. Tal recusa representa para a União Européia uma grave freada no processo de revitalização da União Européia no qual estão trabalhando há tempo os 27 Estados-membros. Até agora, já 18 destes Estados ratificaram o Tratado de Lisboa. Entre estes, estão países estratégicos como França, Alemanha, Dinamarca, Polônia, etc. Este Tratado, que foi assinado pelos Chefes de Governos de todos os Estados-membros em 13 de dezembro de 2007, parecia ser a solução definitiva às precedentes crises que a União Européia superou desde a sua criação. Ao todo, foram seis as crises que colocaram em sério perigo a união deste bloco continental. A última foi em 2006, quando França e Holanda reprovaram, também com um referendum, a adoção da Constituição Européia. Ao assinar o novo Tratado, em dezembro, o clima era otimista, nada fazia prever possíveis rejeições. Isso porque se pensava que este Tratado tivesse alcançado o objetivo de garantir benefícios satisfatórios para todos os seus membros. Entre as justificativas do Tratado estão: melhorar a eficiência do processo de tomada das decisões; reforçar a democracia por meio do Parlamento Europeu; permitir uma posição mais sólida e coerente em matéria de política externa, sobretudo por meio da combinação na mesma pessoa das funções de Alto Representante para os Negócios Estrangeiros e de Vice-Presidente da Comissão Européia; enfrentar os grandes desafios da alteração climática, do problema energético, e de outros problemas transnacionais. Além disso, o Tratado prevê a criação de um novo cargo permanente de Presidente do Conselho Europeu, nomeado por um período de dois anos e meio pelo próprio Conselho Europeu, que traria maior continuidade e estabilidade para o seu trabalho.

Mas, então, quais as razões do “não” irlandês? O famoso cientista político italiano, Giovanni Sartori, atribui este resultado à diminuição da capacidade cognitiva do cidadão europeu. Ou seja, eles não teriam entendido do que se tratava. Ou podemos pensar que foram mal-informados. Há quem diga que existem interesses econômicos e políticos externos que lutam contra uma Europa mais unida e, conseqüentemente, mais autônoma.

Não é a primeira vez que a Irlanda provoca uma crise na União Européia. Já em 2001 os irlandeses optaram pelo não quando votaram contra a ampliação da União Européia e após um ano corrigiram sua posição aprovando a ampliação com um novo referendum.

Diante desta nova crise, a tendência unânime dos outros Estados-membros é de não superestimar o não irlandês. É certamente sintoma de alguma insatisfação que deve ser analisada, mas não é definitivamente o ponto de ruptura que marcará o fim da União Européia. “Devemos continuar a caminhar rumo ao fortalecimento da integração européia”, afirmaram Chefes de Governo europeus.

Poucas semanas atrás tratamos nesta coluna da primeira crise enfrentada pelo continente sul-americano no seu projeto de integração. Em comparação com a União Européia a América do Sul é uma criança movendo os primeiros passos ao lado do irmão mais velho que já corre. A criança menor cai mais que a maior. Contudo, ambos estão sujeitos às quedas. A União Européia também pode cair e se machucar, mas isso não a impede de levantar e continuar caminhando e crescendo. O que vale para o irmão mais velho, vale também para o novo. É o que desejamos também para a experiência da Unasul (União das Nações Sul-americanas).

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Roma, Hong Kong e Macau

Em janeiro de 2005, estava em Roma preparando as malas para uma viagem longamente sonhada. Na manhã seguinte pegaria o avião que me levaria à China, mais propriamente a Macau, ex-colônia portuguesa. Ali se realizaria um seminário internacional sobre China e Ocidente e tive a honra de ser convidada para proferir uma breve palestra.

Era a primeira vez que fazia uma viagem ao Oriente, e sozinha. Meu esposo e minhas filhas ficaram na casa dos meus pais, onde naquele ano passamos as festas de Natal e Ano Novo. Vários familiares e amigos ao saber que iria sozinha à China me perguntavam maravilhados: “Não tens medo de ir sozinha?”. Na verdade, não sentia medo, talvez certo temor. Mas a curiosidade e a vontade de conhecer de perto o meu objeto de estudo de anos e anos, me faziam superar o temor.

Finalmente, o grande dia chegou. Peguei o avião de Roma para Paris, e até aqui nada de incomum para um europeu. Em Paris, peguei o avião para Hong Kong. O cenário mudou completamente. Nós, ocidentais, éramos minoria. Os chineses eram praticamente os donos do avião. Encontrei-me espremida entre duas moças chinesas. Uma delas abriu logo o jornal, em chinês. Consegui ler alguns títulos, mas como há anos não praticava o chinês, muitos ideogramas haviam sumido da minha cabeça. Preferi então pegar o jornal em francês, que me entregaram na entrada do avião. Depois, dormi. Quando acordei, de madrugada, olhei logo a tela da TV que indicava a posição do avião. Estávamos voando sobre a cidade de Vladivostok, na fronteira entre a Rússia e a China. Havíamos percorrido no ar o trajeto da mítica ferrovia transiberiana. Era realmente emocionante. Passamos sobre a cidade de Harbin, famosa pelas esculturas de gelo. Depois, Pequim e Xangai. Enfim, pousamos em Hong Kong.

Quando coloquei o pé em terra chinesa, foi como ter ganhado uma medalha de ouro. Mas a aventura estava somente começando. O aeroporto de Hong Kong é um dos aeroportos mais bonitos que vi até agora. O teto é totalmente de vidro. Poltronas e sofás coloridos estão espalhados em todo o saguão oferecendo repouso aos viajantes mais cansados. A emoção me impedia de sentir o cansaço. Havia preparado todo o trajeto pela internet. Porém, assim que cheguei, percebi que o os horários dos ferry-boat - que saíam do aeroporto direto para Macau - não eram os mesmos que eu havia assinalado pela internet. Deveria esperar pelo menos duas horas, e resolvi pedir informações. Aconselharam-me a pegar o metrô, depois um táxi até o porto e, de lá, o ferry-boat para Macau. Parecia simples, mas a idéia de lançar-me no coração de Hong Kong sem conhecer nada da cidade, e sozinha, fez-me parar alguns minutos para avaliar a situação. Após breve hesitação, decidir arriscar. Era uma aventura e teria que viver cada segundo dela. Peguei um mapa do metrô de Hong Kong, estudei bem as paradas e fui. No metrô não era a única estrangeira, mas certamente a mais inexperiente. Cheguei ao ferry-boat sem problemas. Após quarenta minutos de travessia, já podíamos enxergar as luzes de Macau. Era quase noite quando desci do navio. Enormes letreiros luminosos e coloridos enfeitavam as principais avenidas da cidade. Logo percebi que os cassinos eram os principais empregadores dos habitantes de Macau. Em Hong Kong os cassinos são proibidos, por isso o fluxo de chineses provenientes da ilha e da China continental é enorme. Foi muito bom chegar ao hotel e perceber que estava tudo certo com a minha reserva. Na manhã seguinte, com as luzes artificiais apagadas, pude admirar o rosto mais humano da cidade. Como Macau foi colônia portuguesa, todas as ruas têm o nome português. O hotel em que estava hospedada localizava-se na Rua da Amizade. A arquitetura da cidade antiga é típica de uma cidade portuguesa. No coração da cidade, conheci a Praça do Senado com as mesmas calçadas típicas de Copacabana. Mas o português não é falado, a não ser por poucos idosos. As línguas que prevalecem são o chinês (cantonês) e o inglês, naturalmente. E chinesa é a verdadeira identidade de Macau. De Portugal sobraram os nomes das ruas, a arquitetura de alguns prédios, as ruínas da Igreja de São Paulo, o forte que domina do alto a cidade e a missa das 11 horas de domingo de manhã, sempre rezada em língua portuguesa. Foi uma viagem e tanto. Pena que durou poucos dias. Deixou-me o desejo de conhecer a China mais profundamente. E esse é o lado bom de uma boa viagem: aumenta o desejo de viajar!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Itália sob acusação internacional

No dia 2 de junho, festa da proclamação da República Italiana, o país foi acusado pela ONU de atitude xenófoba e intolerante contra a imigração irregular e as minorias étnicas presentes no território italiano. Louise Arbour, Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, durante uma reunião do Conselho da ONU, em Genebra, denunciou a recente decisão do governo italiano de considerar como delito a imigração ilegal. Ela alertou a comunidade internacional contra os recentes ataques aos acampamentos nômades em Roma e Nápoles. O governo Berlusconi defendeu-se das acusações lembrando que a Itália sempre lutou contra o racismo, a intolerância e a xenofobia. As autoridades italianas alegaram que as medidas legislativas, ainda em discussão, não possuem nenhuma valência discriminatória, mas visam garantir a segurança do povo italiano. Durante a campanha eleitoral, Berlusconi prometeu empenhar-se nas questões de segurança nacional e luta contra a imigração clandestina. Entre as medidas discutidas figuram a expulsão dos estrangeiros quando condenados a uma pena superior a dois anos e o aumento da pena em um terço para o imigrante que cometer um delito. Além disso, qualquer um que viva ilegalmente na Itália pode ser condenado a uma pena de seis meses a três anos de prisão, além de ter que pagar multas de até 150 mil euros e ter a casa confiscada. Se tais medidas forem aprovadas pelo Parlamento, a Itália se tornará um dos países europeus com as regras mais rígidas em relação à imigração.

Segundo uma recente pesquisa, os italianos têm medo dos imigrados, especialmente das populações rom (ciganos), provenientes do leste europeu. Elas vivem acampadas nas periferias das grandes cidades, muitas vezes em condições higiênicas precárias. Recentemente, membros dessas comunidades foram atacados durante a noite e os acampamentos incendiados por grupos extremistas. Por causa disso, as comunidades nômades estão se organizando por meio de turnos de vigilância noturna, tentando proteger-se de outros eventuais ataques.

Medo e insegurança, portanto, de ambos os lados, estão caracterizando o panorama italiano. O governo decidiu usar mão de ferro para colocar fim à criminalidade que se esconde entre os clandestinos. A oposição, porém, liderada por Walter Veltroni, posicionou-se contra as medidas do governo Berlusconi. Tais medidas, segundo ele, só reforçam o medo e a insegurança da população. Segundo Veltroni, é preciso combater a criminalidade e a clandestinidade, mas dentro das diretrizes européias de integração das minorias étnicas. Não se pode, em nome da segurança nacional, aceitar o perigoso estereótipo segundo o qual “todos os rom seriam criminosos”. A oposição alerta que se o novo governo aplicará a política de segurança anunciada, em poucos anos o número de detentos poderá duplicar ou triplicar. Contudo, a discussão italiana não é um problema isolado. A Itália manifestou de forma aguda um sintoma já presente em todo o continente europeu. Outros países europeus, como a Alemanha, França, Reino Unido e Grécia já possuem normas semelhantes às que o governo italiano quer adotar, mesmo se com penas menores (entre três meses e um ano de prisão). O problema da imigração é um assunto que a União Européia está tentando resolver há anos. São quase 12 milhões de clandestinos presentes em todo continente. No último encontro da Assembléia plenária de Estrasburgo, a Comissão Européia, referindo-se aos problemas italianos, condenou todo tipo de violência contra as populações rom, reiterando que os romenos são cidadãos europeus, e têm direito de circular nos países membros. Ocorre distinguir entre os criminosos e aqueles que querem trabalhar e integrar-se.

O problema é que a velha Europa continua sendo o sonho de consumo de muitos. Espera-se conseguir lá uma vida melhor. A Itália continua sendo - no imaginário geral - o país do sol, do mar, da dolce vita. Infelizmente isso não passa de um mito. O velho continente está doente e precisa de cuidados imediatos por parte de todos, imigrantes ou não.