quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A ditadura das castas

No dia 29 de agosto, as 25 mil escolas católicas da Índia fecharam por 24 horas em protesto contra a onda de violência que envolveu, nas últimas semanas, a população cristã e seus missionários, no Estado de Orissa, situado no leste da República Indiana, junto ao Golfo de Bengala. Igrejas, hospitais e orfanatos cristãos foram destruídos, missionários foram espancados, uma moça que trabalhava num orfanato cristão foi queimada viva. Um padre e uma religiosa, após serem agredidos, foram desnudados e feitos desfilar diante do povo. Mais de 8.000 pessoas tiveram suas casas queimadas. Os autores de tal barbárie são membros de uma organização fundamentalista hindu (Vishwa Hindu Parishad).

Já no ano passado, na véspera do Natal, membros desta organização, liderada por Swami Laxmanananda Saraswati, atacaram uma comunidade cristã. Oito meses após o ataque, no dia 23 de agosto deste ano, o líder hindu foi assassinado por grupos maoístas, na véspera da recorrência do nascimento de Krishna. Os fundamentalistas usaram a morte de seu líder como pretexto para culpar os cristãos, acusando-os de ter se vingado pelo ataque do ano passado. Em seguida, os extremistas hindus atacaram simultaneamente 35 centros cristãos do Estado de Orissa. A polícia não conseguiu conter os atos de violência. O governo do Estado é formado por uma coligação sustentada pelo partido fundamentalista hindu.

Atualmente, a Índia é considerada a maior democracia do mundo. O país oferece centro de excelência na área de tecnologia de informação, exportando seus engenheiros ao mundo inteiro. Porém, o progresso tecnológico e político não conseguiu livrá-la de uma corrupção galopante que se alastra em todo seu território, e que mantém impunes graves atos de violência como os que aconteceram em Orissa.

Na Índia, a modernidade convive com o sistema milenar das castas, que impede a maioria dos indianos de melhorar as próprias condições de vida. A discriminação de casta é proibida pela Constituição, mas rege a vida de 80% de sua população. Cada casta vive separada das outras. O membro de uma casta é definido pelo nascimento. Não se pode mudar de casta ou subir na escala social. Quem rompe tais regras é banido de seu grupo e perde o direito ao trabalho. Quatro eram as castas tradicionais: a casta alta, constituída pelos sacerdotes (brâmanes); a casta constituída pelos guerreiros, que se ocupavam da segurança do povo (kshatriyas); a dos comerciantes (vaishyas); e, por último, a casta formada pelos agricultores (sudras). Além do sistema de divisão da sociedade hinduísta em castas, há, também, os fora da casta (os excluídos) considerados impuros, chamados também de Dalit, e os tribais ou Advasi, ambos usados como escravos pelas castas nobres.

A população do estado de Orissa é constituída por 40% de tribais e Dalit, razão que explica o fato de Orissa ser um dos estados mais subdesenvolvidos da Índia. As comunidades cristãs, nestes últimos anos, ocuparam-se justamente daqueles que os hinduístas consideram impuros e, por isso, nem podem ser tocados. Ofereceram-lhes educação, ajudando-os a reencontrar sua dignidade e suas potencialidades. Graças a esta ajuda, eles começaram a reivindicar seus direitos, recusando a exploração e a opressão econômica e social das castas mais altas. De fato, em todas as localidades de Orissa onde estão presentes instituições cristãs, nos últimos anos foi registrado certo progresso socioeconômico, mudanças sociais recusadas pelo sistema cristalizado das castas hinduístas. Os cristãos foram acusados de usar meios fraudulentos para conseguir prosélitos e convencer os habitantes da região a se converter. Na realidade, as conversões foram poucas. O número de cristãos é inferior a 1% da população de Orissa. Mas eles precisam encontrar desculpas para combater o que mais incomoda os fundamentalistas hindus: a perda do controle sobre o sistema milenar de castas. Nos últimos anos, o grupo dos fanáticos e dos intolerantes hindus parece estar ganhando força no território indiano. Contudo, muitas pessoas, não somente cristãs, mas também de outras religiões - budistas, muçulmanos, e, também, grupos hinduístas que não compartilham o fanatismo e a intolerância dos seus correligionários -, demonstraram solidariedade e apoio às vitimas cristãs. Se alguma culpa os cristãos tiveram, foi somente aquela de ter devolvido um pouco de esperança aos que não tinham mais esperança, ajudando-os, após tanto sofrimento e opressão, a enxergar uma luz de igualdade no fim do túnel.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Olimpíadas de Pequim - a China ganhou muito mais que medalhas de ouro

Concluiu-se, no domingo passado, a XXIX edição das Olimpíadas, sediada em Pequim.
Hospedar este evento assumiu, para a China, um significado que ultrapassou as fronteiras esportivas. Por meio dos Jogos Olímpicos, a China pôde celebrar triunfalmente a sua entrada no concerto das nações. A cerimônia de abertura constituiu o bilhete de visita oferecido em grande estilo ao mundo. E que estilo! Dificilmente outras nações poderão igualar o espetáculo que, no dia 8 de agosto, encantou o mundo. A harmonia de cores e formas, a disciplina dos milhares de integrantes das coreografias que lembravam os momentos mais importantes da história milenar chinesa, deixou em quem assistia a sensação de estar diante de um show inimitável. Estavam presentes quase todos os presidentes e primeiros ministros dos Estados participantes dos Jogos Olímpicos e tal presença para o governo chinês foi uma das principais vitórias: o reconhecimento internacional por excelência.

A China também saiu vitoriosa na conquista das medalhas de ouro. Foram 51 medalhas de ouro contra as 36 americanas. Ela conseguiu, portanto, afirmar-se também como superpotência esportiva.

Na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos, o presidente da China, Hu Jintao estava satisfeito. A missão de demonstrar ao mundo o valor da China estava cumprida. No seu discurso de agradecimento, Hu Jintao exaltou os princípios destes Jogos: o espírito de amizade, de solidariedade e de paz. Ele sublinhou a importância da compreensão mútua e o valor da amizade que une o povo chinês e os outros povos da terra.

Contudo, estas Olimpíadas ganharam também o primado em críticas e manifestações públicas de reprovação por parte da opinião pública internacional. Os protestos pró-Tibete e os atentados terroristas na província muçulmana de Xinjiang representaram humilhantes espinhos para o governo chinês. A opinião pública internacional esperava que estes Jogos trouxessem um melhoramento no respeito dos direitos humanos por parte do governo chinês. Deste ponto de vista, os Jogos Olímpicos foram uma decepção. A máquina de férreo controle das autoridades chinesas funcionou de forma capilar e sem tréguas. O governo chinês não podia permitir que nada estragasse o objetivo mais importante deste evento mundial tão longamente esperado.

Após o humilhante período do colonialismo europeu, durante o qual a China sofreu contínuos ataques à sua soberania por parte das potências ocidentais que a invadiram e a exploraram economicamente, agora a China podia se colocar no mesmo nível das outras nações. Talvez, para nós ocidentais, acostumados a uma tradição de liberdade de expressão, de natural prioridade do individual em relação ao coletivo, resulte difícil entender o sacrifício dos cidadãos chineses em prol da nação chinesa. Não quero assim justificar as repressões das manifestações de protestos, nem as escolhas arbitrárias do governo chinês para que tudo, nesses Jogos, estivesse perfeito. Fez a volta ao mundo, logo após a cerimônia de abertura, a notícia da substituição da menina (cantora) dos dentes tortos por uma menina esteticamente perfeita que simplesmente abria a boca sem emitir um único som, enquanto a voz celestial da menina dos dentes tortos ecoava pelo estádio. A China foi acusada de falsidade, de esconder o que é ruim, por trás de imagens aparentemente perfeitas. Tudo isto é verdade. A China é o país das contradições. Mas existe um país no mundo onde não há contradições? Considero naturalmente justo fazer pressões para que a situação de milhares de chineses melhore, mas me pergunto se essas críticas e pressões internacionais são sempre verdadeiramente altruístas ou escondem objetivos de interesse político-econômico?

Estas Olimpíadas uniram o povo chinês e alimentaram, como não acontecia há décadas, seu espírito nacionalista. Uma pesquisa americana revelou que os chineses são o povo mais satisfeito da própria evolução. Com 86% de otimistas, mantém o mais alto índice de confiança do planeta. Certamente estes Jogos ajudaram, pelo menos, a atingir esta meta.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Sérgio Vieira de Mello - o intelectual orgânico das relações internacionais

Recorreu ontem, 19 de agosto, o 5º aniversário da morte de Sérgio Vieira de Mello, diplomata brasileiro morto com outros 21 funcionários das Nações Unidas durante um atentado terrorista contra a sede da ONU, em Bagdá, no Iraque. Nascido no Rio de Janeiro, filho de diplomata, estudou filosofia em Paris. Aos 21 anos, já trabalhava na ONU. Durante os 33 anos como funcionário das Nações Unidas, atuou principalmente junto ao Alto Comissariado para os refugiados da ONU, em Genebra, na Suíça. Participou de operações humanitárias em países marcados per graves conflitos, como Sudão, Bangladesh, Chipre, Moçambique e Peru. Nos anos 80, o reconhecimento oficial do seu brilhante serviço diplomático e humanitário veio por meio da nomeação a conselheiro político sênior das forças da ONU no Líbano. Nos anos 90, trabalhou com os refugiados do Camboja. Em 1999, Sérgio foi enviado ao Kosovo, onde assumiu a função de representante especial do secretário geral da ONU. Na mesma função, trabalhou para a resolução do conflito no Timor Leste, ajudando, sempre em cooperação com o povo timorense, a construir as bases do novo estado e promover o retorno de milhares de refugiados. Permaneceu no país até 2002, quando o Timor Leste proclamou sua independência. Naquele ano, foi nomeado alto comissário de direitos humanos da ONU. Em 2003, porém, afastou-se desta função para atuar como representante especial do secretário-geral da ONU, no Iraque, no contexto da invasão americana ao país. Objetivo da missão da ONU era trabalhar para restabelecer a paz e ajudar o país a construir um governo democrático após o fim do conflito. Mesmo percebendo que esta missão teria sido particularmente difícil, Sérgio Vieira de Mello aceitou o desafio. Contudo, seu serviço no Iraque durou somente quatro meses. O atentado do dia 19 de agosto de 2003 colocou fim a uma vida de dedicação em prol da paz e da solidariedade humana. Pelas peculiaridades de sua atuação internacional, Sérgio Vieira de Mello pode ser definido como um intelectual orgânico das relações internacionais. O conceito de intelectual orgânico surgiu nas primeiras décadas do século 20, por meio de Antonio Gramsci, escritor, jornalista e político italiano perseguido e morto pela ditadura fascista. No intuito de definir qual deveria ser o papel dos intelectuais na sociedade, Gramsci identificou dois tipos de intelectuais: o primeiro era constituído pelos intelectuais tradicionais, entendidos como grupo autônomo e independente, distante das massas populares. O segundo tipo, cuja atuação ele defendia, eram os intelectuais cuja atividade e pensamento entrelaçava-se com o grupo social ao qual pertenciam. O adjetivo orgânico era devido ao fato de considerar tais intelectuais como parte de um organismo vivo, a sociedade onde viviam. Eram, portanto, não mais intelectuais relegados a uma elite isolada, mas intrinsecamente ligados às organizações políticas, culturais e sociais do seu tempo. Tais intelectuais deviam ser - segundo Gramsci - construtores, organizadores e educadores permanentes das massas populares, interligando sua ação política com seus conhecimentos. Sergio Vieira de Mello mergulhou de corpo e alma no seu trabalho, trocando a comodidade de um lugar seguro e burocrático pelo campo de batalha de países e populações devastadas pelo conflito e pela violência. Inspirado nos princípios filosóficos de Kant, Sergio Vieira de Mello acreditava na possibilidade do fim dos conflitos por meio da adoção de um direito cosmopolita regulador das relações internacionais. Colocou a serviço da comunidade internacional as suas habilidades de negociador, tentando dialogar também com os ditadores. Mesmo tendo consciência da fragilidade da organização pela qual trabalhava, procurou atuar, de forma realista, mas incisiva, pela defesa dos valores de relações internacionais marcadas pelo respeito e pela solidariedade. Segundo seus colegas de trabalho, Sérgio atuava uma “diplomacia silenciosa”, longe dos holofotes. O seu objetivo foi sempre aquele de trabalhar para construir bases sólidas de segurança global. Como intelectual orgânico, Sérgio Vieira de Mello foi protagonista ativo de sua história e da de muitos povos, ao qual ele dedicou, com generosidade e inteligência, a sua própria vida.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Raízes do conflito Geórgia-Rússia

No final da semana passada, enquanto a atenção mundial estava voltada à abertura espetacular dos Jogos Olímpicos de Pequim, em uma pequena região do Cáucaso eclodia mais um conflito regional. Tropas do exército da Geórgia invadiram o território da região autônoma da Ossétia do Sul - caracterizado por separatismos anti-georgianos - provocando a reação militar da vizinha Rússia. A região autônoma é ocupada por etnia filo-russa que representa 70% de sua população. Os 30% restantes são georgianos. Em 1991, a Ossétia do Sul já fora cenário de guerra civil. No ano seguinte, a região proclamou a própria independência da Geórgia. Contudo, tal ato unilateral não foi reconhecido por nenhum membro da comunidade internacional. Desde então, a população ossetiana do sul quer unir-se à vizinha Ossétia do Norte, que pertence à Federação Russa. A Geórgia tem no seu território outras duas minorias étnicas filo-russas, nas regiões de Adjária e de Abkházia. Os habitantes das três regiões autônomas são culturalmente mais próximos à Rússia que à Geórgia. Com a Rússia, eles compartilham o idioma, o estilo de vida, tanto que receberam o passaporte russo e, conseqüentemente, o direito de voto nas eleições da Rússia. Poderíamos nos perguntar, então, porque eles não pertencem à Federação Russa? Para entender melhor a raiz do problema, ocorre voltar aos anos 20, na época do governo de Stalin. Ele planejava a construção de uma federação, liderada pela Rússia. Segundo seu projeto, a federação seria formada por Rússia, Ucrânia, Bielorússia e a região do Cáucaso (entre os países do Cáucaso estava a Geórgia, sua terra natal). Stalin considerava fundamental, para manter a liderança russa, a existência de conflitos étnicos nas próprias repúblicas integrantes da federação. Os conflitos étnicos dariam legitimidade ao governo centralizador de Moscou de intervir, inclusive militarmente, para defender os próprios interesses. Por tal motivo, em 1921, quando Stalin invadiu a Geórgia, ele anexou ao país invadido a Ossétia do Sul e a Abkházia, cujas populações odiavam os georgianos. Com a desintegração da URSS, as fronteiras já existentes foram respeitadas, sem levar em conta a vontade das populações. A Geórgia tornou-se uma nação independente. Nos primeiros anos, após a dissolução da União Soviética, ela foi liderada por um presidente de direita e extremamente nacionalista, que afastou o país da Rússia, recusando-se a integrar na Comunidade de Estados Independentes (CEI), liderada por Moscou e formada por ex-repúblicas soviéticas.

Durante a década de 1990, após o fim da guerra civil, a situação se manteve estável. A Rússia atravessava sérios problemas econômicos e políticos e, por isso, dedicou mais atenção à política interna que à externa. Todavia, com a eleição de Vladimir Putin, em 2000, a situação mudou. O presidente Putin lutou pela reafirmação da Rússia como potência regional forte e estável, reforçando sua influência política nos países vizinhos, e despertando, com isso, tensões que pareciam adormecidas. O apoio às minorias étnicas filo-russas foi parte do planejamento político de Putin. A situação na Geórgia agravou-se com a eleição do presidente Mikhail Saakashvili, em 2004. Saakashvili, logo após sua eleição, deixou claro que o seu objetivo era restabelecer o controle total de seu governo sobre as regiões separatistas da Ossétia dos Sul e da Abkházia. Ao mesmo tempo, ele manifestou o desejo que a Geórgia passasse a fazer parte da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), pedindo aos Estados Unidos ajuda para modernizar suas tropas. Naturalmente, os Estados Unidos acolheram imediatamente o convite georgiano, enviando mais de mil militares americanos que, no contexto da guerra ao terrorismo, estabeleceram-se no território georgiano. A presença e o apoio americano à Geórgia agravaram a sensação de perigo por parte da Rússia de se ver cercada por forças americanas já presentes na Ucrânia. Além disso, no território da Geórgia passam os oleodutos e gasodutos para o Ocidente, o que tornou este país filo-ocidental um país estrategicamente importante. A Rússia manifestou várias vezes sua oposição à expansão da OTAN rumo ao seu território. Talvez seja por isso que reagiu com tanta dureza à invasão georgiana da Ossétia do Sul, território sob sua proteção mais moral do que militar. Certamente, num conflito, as responsabilidades nunca estão de um lado só, mas, neste caso, os analistas internacionais estão de acordo em afirmar que Saakashvili errou os cálculos. A Rússia deixou claro que não abandonará os ossetianos filo-russos. Nas Olimpíadas, o abraço, no pódio, entre uma atleta georgiana e uma atleta russa, no último domingo, pareceu-me um sinal de esperança para a resolução definitiva do conflito.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Alexander Solzhenitsyn: a voz da consciência russa

No domingo passado, morreu Alexander Solzhenitsyn, um dos maiores escritores do século XX. Solzhenitsyn nasceu em 11 de dezembro de 1918 na pequena cidade de Kislovodsk, na região do Cáucaso, localizada na então União Soviética. Seu pai morreu durante a guerra, seis meses antes de ele nascer. Desde sua adolescência, manifestou vontade de se tornar escritor. Na cidade onde cresceu não havia faculdades de literatura e as condições financeiras de sua mãe não lhe permitiram mudar-se para Moscou, como ele sonhava. Formou-se em Matemática e Física, em 1941, matérias pelas quais também demonstrara particular aptidão. Solzhenitsyn tornou-se soldado do exército russo, combatendo por dois anos no segundo conflito mundial. Das trincheiras, enviava cartas a um seu amigo de infância, criticando, às vezes, o governo de Stalin. Por essas críticas, Alexander foi preso, em 1945, e condenado a oito anos de prisão nos campos de trabalho forçado. Graças à sua formação matemática, passou os primeiros quatro anos trabalhando num instituto de pesquisas para onde eram enviados prisioneiros cientistas. Depois, porém, foi enviado a um campo de concentração, no gelo do Cazaquistão, onde trabalhou como pedreiro, mineiro e metalúrgico. Neste período foi-lhe diagnosticado um câncer. As suas condições de saúde começaram a piorar. Em 1954, Alexander chegou quase morto à cidade de Tashkent, no Uzbequistão, onde finalmente foi operado e curado. Durante todos esses anos, Solzhenitsyn escrevia, às escondidas, poemas e contos. Ele memorizava os poemas e depois os queimava. Todo dia, usando um terço, declamava seus poemas, um em cada conta, para não os esquecer. Quando alguém perguntava, dizia que estava rezando. Os relatos de sua prisão – que formarão sua obra mais famosa, O Arquipélago Gulag - eram escritos em minúsculas folhas de papel, que eram enterradas, para a polícia não o descobrir. Numa autobiografia, escrita para a ocasião da entrega do Prêmio Nobel da Literatura, ele disse: “Durante todos os anos, até 1961, eu não apenas estava convencido que sequer uma linha por mim escrita jamais seria publicada durante minha vida, mas, também, raramente ousava permitir que meus amigos lessem o que havia escrito por medo que o fato se tornasse conhecido”.

As mudanças políticas na Rússia dos anos 50, mudaram, por alguns anos, o destino de Alexander. De fato, depois da morte de Stalin, em 1956, Nikita Krushev, que assumiu o comando da União Soviética, começou o processo de desestalinização, denunciando abertamente os crimes cometidos por Stalin. Em 1961, em ocasião do XXII Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), o governo convidou os escritores russos a unirem-se à desestalinização.

Solzhenitsyn conseguiu, então, publicar, com a aprovação oficial de Krushev, seu primeiro romance: Um dia na vida de Ivan Denisovic, diário nos campos de trabalho forçado durante a ditadura staliniana. Graças a esse romance, Solzhenitsyn tornou-se conhecido também no mundo ocidental. Continuou suas críticas e, por isso, foi expulso em 1967 da união dos escritores russos. Em 1970, o Prêmio Nobel de Literatura lhe foi dado, mas o governo russo não permitiu que o recebesse. Solzhenistyn não poupou esforços e palavras para denunciar o arbítrio das leis soviéticas e o drama do povo russo transformado pelo regime comunista em “inimigo de si mesmo”, como ele afirmou naqueles anos. Em 1974, após tirar dele a nacionalidade russa, o governo o expulsou. Alexander passou dois anos na Suíça e o resto do exílio nos Estados Unidos, onde permaneceu até 1994. Antes disso, em 1973, em Paris, foi publicado o primeiro volume do seu romance de maior sucesso, o Arquipélago Gulag. Na obra, ele denunciou o sistema arbitrário do regime de Stalin, as prisões, os campos de trabalho forçado. Lutou para que sua obra não fosse instrumentalizada pelos adversários do regime. Era contra qualquer tipo de ideologia, comunista ou não. O que lhe importava era o ser humano. Dizia que “aquilo que rende inestimável e único o ser humano não vem da política, nem da ideologia, nem mesmo das suas próprias qualidades humanas, mas de algo que o homem traz dentro de si”. Solzhenitsyn chamava isso de alma. A fé em Deus - ele pediu para ser batizado em 1957 - o dotou de grande força moral e deu significado à sua missão de escritor. Mesmo após a dissolução da União Soviética, Solzhenitsyn continuou, por meio de seus escritos, a ser a consciência crítica da sociedade russa, fazendo-se porta-voz da dignidade e da liberdade infinita do ser humano.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Uma visita ao mundo da diplomacia

No início de março deste ano, enquanto acabava de escrever minha coluna semanal no Notisul, minha filha entregou-me um envelope com o carimbo do Ministério das Relações Exteriores, o famoso Itamaraty. A carta era assinada por dois embaixadores. Tratava-se de um convite para participar, no mês seguinte, de um Seminário Internacional sobre a China, organizado pelo próprio Itamaraty. O Seminário queria reunir personalidades, diplomatas, intelectuais e professores dos cursos de Relações Internacionais, Ciência Política, História e Economia. Fiquei muito feliz em receber tal convite. Minha alegria aumentou ao saber que o Seminário aconteceria na Cidade Maravilhosa: o Rio de Janeiro! Por incrível que possa parecer, ainda não conhecia pessoalmente o Rio, mesmo residindo há quase 12 anos no Brasil. Dias depois, recebi outra boa notícia: no Seminário seria lançado meu primeiro livro, resultado da minha tese de Doutorado. O título: “Diplomacia e Religião – Encontros e Desencontros nas relações entre Santa Sé e República Popular da China de 1949 a 2005”.

Cheguei ao Rio um dia antes do início do Seminário, pois queria aproveitar para conhecer a cidade. Pena que foi bem na época da epidemia da dengue. Mas o medo da doença não me impediu de aproveitar ao máximo a estada na cidade. Munida de um bom repelente, pude passear um pouco pelas famosas avenidas de Copacabana e pelo bairro de Ipanema.

A primeira vez que vi, pela televisão, os elegantes bairros de Copacabana, Leblon e Ipanema foi numa das primeiras novelas brasileiras que chegou à televisão italiana: Dancing Days. Lembro que, ainda menininha, eu, meus irmãos e primos após fazermos as tarefas da escola, assistíamos à novela imergindo-nos naquele mundo tão distante e diferente. Mais tarde, as histórias dramáticas dos meninos de rua mostraram-me o lado menos poético do Rio de Janeiro. Já morando no Brasil, e acompanhando as crônicas da cidade, infelizmente este lado trágico do Rio continuou a sobressair. Talvez fosse por isso que, até este ano, nunca viajara para lá. Contudo, as sensações mágicas desta cidade, saboreadas por meio das belíssimas músicas de Vinicius de Moraes, Chico Buarque e outros, despertavam uma grande curiosidade. E não fiquei decepcionada. Ao lado das praias tropicais e da natureza exuberante, o que me fascinou profundamente foram as riquezas históricas da cidade. Pude muito apreciá-las durante o Seminário, realizado no antigo palácio Itamaraty, no coração da cidade. O elegante jardim que envolve o palácio me levou aos tempos da chegada da monarquia portuguesa, aos anos da fundação da República do Brasil. Os salões do palácio eram imponentes, majestosos. Lá estava eu, sentada à longa mesa - cheia de microfones e copos de águas - em meio a diplomatas brasileiros, chineses, americanos, argentinos. Ao nosso redor e na sala contígua, centenas de jovens estudantes escutavam o debate sobre a China: a nova potência mundial que cada dia mais surpreende e assusta o mundo. No início, fiquei um pouco temerosa por ter que falar diante de tantos embaixadores e professores ilustres. Afinal, eles podiam contar com décadas de experiência no mundo diplomático e acadêmico. Em comparação a eles, sentia-me uma debutante. No entanto, logo me impressionou a simplicidade e afabilidade deles. Quando meu livro foi distribuído a todos os participantes, recebi elogios por ter escolhido um tema inovador e complexo. Fala-se muito da economia da China, do seu PIB, crescimento urbano, mas outros aspectos passam despercebidos: suas raízes históricas, culturais e religiosas são pouco debatidas. No meu livro, procurei entender quais foram e quais são as dificuldades encontradas pelo povo chinês diante da difusão da religião católica no seu território; como a religião sobreviveu às fases críticas da diplomacia entre o governo de Pequim e a Santa Sé; quais foram os passos dados, as ocasiões de encontro perdidas entre o cristianismo, religião universal de dois mil anos, e o Império chinês, de cinco milênios. É uma questão aberta e, por tal razão, envolvente, apaixonante. O livro está disponível no site da editora: www.funag.gov.br.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Sidney 2008 - 23° Jornada Mundial da Juventude

Concluiu-se domingo, dia 20, a 23ª Jornada Mundial da Juventude, o maior evento católico juvenil no mundo. É a segunda vez que o papa Bento XVI encontra-se com os jovens dos cinco continentes. Ele quis dar continuidade à tradição criada por seu predecessor.

João Paulo II teve a idéia de instituir as Jornadas Mundiais da Juventude durante a Missa do Domingo de Ramos de 1983, surpreendido pela grande afluência de jovens na Praça de São Pedro: cerca de 250 mil. Para o papa, as jornadas teriam o objetivo de “alimentar a fé por meio do encontro de coetâneos de diferentes países e da comunhão das respectivas experiências”. No início, a proposta do pontífice não recebeu o apoio esperado, principalmente dentro da própria igreja católica. Muitos bispos a contrastaram. Mas, na 1ª Jornada Mundial da Juventude, realizada em Roma, no ano de 1986, os “opositores” tiveram que reconhecer o sucesso da intuição de João Paulo II. Naquela jornada, eu estava entre os milhares de participantes e, apesar de não gostar muito de aglomeração de multidões, foi uma experiência inesquecível. A partir daquele ano, as Jornadas Mundiais da Juventude percorreram o mundo, alternando os encontros em Roma e fora da Itália. Buenos Aires (Argentina), 1987; Santiago de Compostela (Espanha), 1989; Czestochowa (Polônia), 1991; Denver (EUA), 1993; Manila (Filipinas), 1995; Paris (França), 1997; Toronto (Canadá), 2002; Colônia (Alemanha), 2005, foram as cidades escolhidas pelo papa João Paulo II. Em 2005, em Colônia, no seu lugar estava o novo papa Bento XVI. De novo, dentro da igreja católica, começou a se duvidar do sucesso das Jornadas Mundiais da Juventude, principalmente porque se pensava que Bento XVI, não possuindo as mesmas características midiáticas do seu predecessor, pudesse, de alguma forma, decepcionar a juventude. Também desta vez, as dúvidas logo se dissiparam. O papa Bento XVI conquistou os jovens com a inteligência aguda e penetrante de suas comunicações e, sobretudo, pela extraordinária capacidade de estabelecer um relacionamento pessoal com seus ouvintes, mesmo no meio de uma multidão. No primeiro encontro com ele, muitos jovens afirmaram: “Antes, viajávamos para ver o papa, agora viajamos para escutá-lo”. Sidney foi a primeira cidade escolhida por Bento XVI. Uma escolha à primeira vista difícil, pela distância geográfica (20 horas de avião da Itália), e pela distância da tradição religiosa. Como o próprio Bento XVI afirmou, a Austrália é um dos países mais secularizados do planeta. Os católicos representam somente cerca de 26% da população. Na véspera da Jornada Mundial da Juventude, os jornais australianos publicaram o temor da população diante da invasão dos jovens. Mas, também este ano, a Jornada Mundial da Juventude foi um sucesso. Chegando de barco, na baía de Sidney, o papa Bento XVI foi acolhido por 200 mil pessoas. O dobro - cerca de 400 mil pessoas ou até um pouco mais - participou da missa no domingo, dia 20, realizada no hipódromo de Randwick. Participaram da jornada cerca de 225 mil jovens, dos quais 125 mil da Austrália e os outros 100 mil provenientes do resto do mundo. O lema do encontro foi "Recebereis uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas” (Atos 1, 8). O papa Bento XVI inovou na comunicação com os jovens. Se, até agora, o papa comunicava-se com seu povo por meio de encíclicas, cartas apostólicas, exortações, discursos oficiais, neste encontro, o papa usou um novo meio: o SMS ou torpedo, como são conhecidas no Brasil as mensagens enviadas por celular. Todo dia, Bento XVI, assinando o torpedo com a sigla BXVI, enviava mensagens aos participantes, convidando-os a viver o lema da jornada. No primeiro dia, ele escreveu: “O Espírito Santo é o principal agente da história da salvação; deixe-o escrever também a história de sua vida - BXVI”. A cidade de Sidney, futurista e secularizada, deixou-se envolver pelo entusiasmo dos milhares de jovens e por um papa que rompe protocolos e preconceitos, surpreendendo com um carisma todo próprio que não imaginávamos que ele tivesse.