quarta-feira, 30 de abril de 2008

Afeganistão: novo ataque dos talibãs

No domingo passado os talibãs voltaram a atacar. Mais uma vez o alvo escolhido foi o presidente do país, Hamid Karzai, da etnia pashtus, a etnia majoritária do Afeganistão. No país existem também as etnias Tadjiques, Uesbeques e os Hazaras (xiitas), localizadas no norte e no centro do país. O atentado aconteceu durante uma parada militar que celebrava o 16º aniversário da queda do governo filo-soviético. Não obstante a presença de carro armados e de milhares de soldados que desfilavam nas ruas da capital, Cabul, os talibãs conseguiram se aproximar do presidente Karzai abrindo fogo na direção das autoridades políticas após lançarem dois foguetes de um prédio vizinho. O presidente saiu ileso, mas três civis foram mortos, entre eles uma criança de 10 anos. Três talibãs também morreram. Logo após o atentado, os talibãs reivindicaram a autoria do ataque. O seu porta-voz, Zabihulah Mujahed, afirmou: “As autoridades afegãs e a Otan afirmaram este ano que os talibãs estão prestes a serem derrotados. Neste atentado, não apontávamos para ninguém em particular, só queríamos mostrar ao mundo que podemos atacar onde desejarmos”.

Este último ataque parece, portanto, ser conseqüência das decisões internacionais tomadas no último vértice da Otan, realizado em Bucareste no início de abril. No vértice, 12 países membros da Otan empenharam-se (diante do presidente afegão Karzai) a manter presença no país oferecendo os meios e equipamentos necessários para que, até 2010, o Afeganistão consiga criar um exército efetivo de 80.000 homens. O Ocidente enviará novas tropas de militares, respondendo desta forma às pressões americanas de reforçar a batalha contra os talibãs no país. O objetivo da presença militar internacional seria, conseqüentemente, o de ajudar a população afegã a reencontrar a autonomia política necessária para garantir a estabilidade no país. Mas este objetivo nos parece muito difícil de ser alcançado, ao menos nas atuais condições políticas, sociais e econômicas.

O povo afegão, apesar de estar ciente de não poder enfrentar sozinho o fantasma ainda ativo do governo talibã - que promoveu no país anos de obscurantismo e terror - vê com desconfiança a presença dos militares estrangeiros que parecem ter invadido o país assim como fizeram as tropas soviéticas em 1979.

O governo de Karzai - que venceu as eleições em 2004, após uma intervenção militar internacional liderada pelos Estados Unidos - está se demonstrando politicamente muito fraco também em relação aos senhores da guerra, presentes no próprio parlamento e que agem unicamente em favor dos próprios interesses econômicos.

O Afeganistão é um dos países mais pobres do mundo. Contudo, segundo o último relato da FAO, a agência da Onu para alimentação e agricultura, o país poderia facilmente saciar a fome de sua população. Seria suficiente, para isso, substituir a maciça produção de ópio por aquela de trigo. Segundo os dados da ONU, o Afeganistão destina 193 mil hectares de terras para a plantação de papoula, produzindo desta forma mais de 90% do ópio em circulação. No entanto, o controle da produção e comércio das drogas está nas mãos dos talibãs que, por sua vez, apóiam o terrorismo internacional.

Além disso, o Afeganistão, apesar de não oferecer nenhum tipo de recurso econômico ou energético capaz de atrair os olhos do mundo, teve a infelicidade de localizar-se entre países relevantes para a geopolítica mundial. Situado entre a China e o Irã, representa, para os Estados Unidos, um canal estratégico de acesso às riquezas petrolíferas dos países da Ásia Central, sem ter que passar pela rival Rússia. Atualmente, para o vizinho Paquistão, que apóia as ofensivas talibãs, o Afeganistão representa um estado tampão frente à Índia. A população afegã parece condenada a ser alvo dos interesses nacionais e internacionais que continuam mantendo o país num perene estado de guerra civil. Os Estados Unidos acusam o fundamentalismo islâmico de ser o culpado por toda essa história, mas foram os principais responsáveis pelo domínio talibã no país, já que armaram Osama Bin Laden nos anos de luta contra a ex-URSS.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Um bispo na presidência do Paraguai

O porta-voz do Vaticano, Mons. Frederico Lombardi, definiu a eleição do bispo Lugo à presidência do Paraguai um fato inédito que chama a atenção, mesmo se afirmou não ter se surpreendido com a vitória de Lugo.

Mons. Fernando Lugo venceu as eleições no Paraguai com 40, 8% dos votos contra 30, 8 % da candidata Blanca Olevar, do Partido Colorado. O povo paraguaio colocou fim aos 61 anos de poder do Partido Colorado. Tal partido governou o país de 1947 a 2008, incluído o período da ditadura do general Alfredo Stroessner (1954-1989), também Colorado. Durante esses 61 anos no poder, o Paraguai tornou-se um dos países mais corruptos e mais pobres da América Latina. Estima-se que cerca de um milhão de paraguaios deixaram o país em busca de uma melhor qualidade de vida, e que destes, 200.000 deixaram o país por razões políticas. Fernando Lugo, líder da Aliança Patriótica para a Mudança (APC) apareceu como sinal de esperança para a população paraguaia. Nasceu no dia 30 de maio de 1951, em uma das regiões mais pobres do Paraguai, a região rural de São Pedro, a 400 quilômetros ao sul da capital do país, Assunção. Em 1977 foi ordenado sacerdote na Congregação do Verbo Divino. Logo após a ordenação sacerdotal foi trabalhar no Equador com o Mons. Leonidas Proaño, onde por cinco anos participou da coordenação da “Igreja dos pobres”, ligada à Teologia da Libertação. Quando voltou ao Paraguai, foi expulso pelas autoridades porque considerado perigoso para a paz social. Viajou então para Roma onde se dedicou aos estudos de teologia. Em 1994, foi consagrado Bispo de São Pedro, a sua diocese de origem. Com o objetivo de ajudar a população, deu vida ao movimento Tekojoja (que na língua Guarani quer dizer Igualdade). Em março de 2006, nasceu um movimento de resistência cidadã contra a intenção do presidente Duarte Frutos de modificar a Constituição para ser reeleito pela terceira vez. No dia 29 de março, Lugo convocou uma caminhada de protesto em Assunção em que participaram 45.000 pessoas. Naquela ocasião, diversas organizações e grupos políticos uniram-se para pedir sua candidatura. Em setembro, as pesquisas eleitorais já o colocavam como 1º candidato à presidência. Em resposta à solicitação popular, em dezembro do mesmo ano, Lugo anunciou sua renúncia à vida sacerdotal para concorrer às eleições políticas. O Vaticano, porém, não aceitou sua renúncia e decidiu suspendê-lo “a divinis” (o que significa, segundo o Código de Direito Canônico, que o sacerdote continua obrigado aos deveres a ele inerentes, embora esteja suspenso do ministério sacerdotal). Agora, depois de sua eleição, a Santa Sé deverá avaliar a melhor solução para este caso inédito. Contudo, como afirmou o porta-voz vaticano, “trata-se somente de uma questão jurídica sobre sua função na Igreja. Não é um problema de relações diplomáticas”.

Lugo deverá enfrentar agora a oposição acirrada do Partido Colorado que, durante a campanha eleitoral, o chamou de esquerdista, definindo-o aliado dos presidentes Morales, da Bolívia, e Hugo Chavez, da Venezuela, do qual teria recebido - segundo seus opositores - ajuda financeira. Lugo fez questão de se distanciar de posições esquerdistas, definindo-se um homem de centro. Em recente entrevista, declarou que entre seus objetivos políticos está a reconciliação nacional, política e social. “Chegou o momento – ele afirmou - de sentarmo-nos ao redor de uma grande mesa para resolver os nossos problemas e desenhar um projeto para o nosso país. Um desafio fundamental é o crescimento econômico, que ajudará a melhorar a igualdade social”. E, concluindo a entrevista, afirmou: “É impossível obter em pouco tempo aquilo que outros obtiveram em muitos anos. Mas eu continuo a ser otimista e confiar em Deus”. As boas intenções não lhe faltam, mas Lugo deverá trabalhar muito para construir um governo capaz de enfrentar a dura oposição que o presidente Duarte, até então no poder, prometeu fazer. Seu ponto fraco está justamente nos grupos e partidos políticos que o apoiaram: grupos de esquerda, centro e direita. Mas os eleitores estão do seu lado, apostaram nele com a esperança de poder finalmente virar página e construir uma história mais feliz para o povo paraguaio.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Eleições na Itália: venceu o bipolarismo

Segunda-feira, com a divulgação dos resultados das eleições na Itália, delineou-se um novo cenário para a política italiana. O tradicional panorama fragmentado que sempre caracterizou a Itália, pela presença - ao lado de alguns grandes partidos - de inúmeros mini-partidos fundados em nome de uma aparente representatividade, cedeu o lugar a um cenário diferente, com duas forças políticas principais: O “Popolo delle Libertà” de Silvio Berlusconi, que venceu as eleições, e o Partido Democrático liderado por Walter Veltroni, até então prefeito de Roma.

O governo anterior, que durou pouco menos de dois anos, caiu justamente pela fragmentação política e falta de unidade de programas e decisões no seio da maioria parlamentar. Este fracasso político, que só agravou a já preocupante situação dos italianos – a economia italiana registrou, nestes últimos anos, o pior momento desde o fim da segunda guerra mundial –, levou os candidatos a rever as habituais coligações e a tomar a corajosa decisão de cortar com o mau costume de coligações úteis só para vencer, mas não para governar. Neste sentido, mesmo não ganhando as eleições, Walter Veltroni registrou um grande sucesso por ter tido a audácia de recusar coligações com antigos aliados, como a esquerda conservadora de Fausto Bertinotti, protagonista de reviravoltas políticas que levaram várias vezes à queda de governos passados.
A única coligação feita pelo Partido Democrático foi com o partido “Italia dei Valori”, de Antonio de Pietro – magistrado símbolo da Operação Mãos Limpas -, que obteve um crescimento inédito, recebendo mais que o dobro de votos obtidos nas eleições de 2006. Os dois partidos desempenharão o papel de oposição, e tudo faz esperar que seja uma oposição forte, porque unida e com objetivos bem definidos. Os líderes da oposição já declararam oficialmente que trabalharão como grupo político único, mesmo sendo de partidos diferentes. Fora desta coligação de oposição, permaneceu no parlamento também outro partido de oposição ao governo que decidiu concorrer sozinho. A UDC, União dos Democratas Cristãos, liderada por Pierferdinando Casini, desta vez não aceitou coligar-se com Berlusconi.

A coligação vencedora é constituída por três partidos: o “Popolo delle Libertà”, de centro-direita, que nasceu da união dos antigos partidos “Forza Italia”, de Berlusconi, e “Alleanza Nazionale”, de Gianfranco Fini; o partido “Lega Nord”, de Umberto Bossi, que registrou um crescimento surpreendente; e o “Movimento pela Autonomia”, de Raffaele Lombardi, um grupo político recém criado que luta em favor da autonomia do sul da Itália.

Seis partidos organizados em cinco grupos parlamentares ocuparão o cenário político italiano após as eleições políticas de abril de 2008. Uma verdadeira revolução, já que saíram de cena - não tendo ganhado nenhuma cadeira nem na Câmara nem no Senado - a esquerda comunista, a extrema direita (herdeira do fascismo) e o partido socialista, protagonistas que ocuparam até então lugar de destaque na história política italiana.Menos fragmentação, mais unidade e abertura ao diálogo, menos polêmica e mais empenho em trabalhar pelo melhoramento das condições de vida dos italianos. São estes os ingredientes nas mãos dos políticos italianos, elementos favoráveis para estabelecer as regras de um bom governo e oposição. Além disso, registra-se entre os que ganharam o dever de governar ou o de fazer oposição um sentimento de satisfação por ter sido alcançado um objetivo importante, o bipolarismo - elemento chave nas melhores democracias modernas. O líder do maior partido de oposição, o Partido Democrático, Walter Veltroni, ao tomar conhecimento dos resultados das eleições, telefonou para o vencedor, Silvio Berlusconi, desejando-lhe um bom trabalho. Também este simples gesto, que pode parecer apenas boa educação, representou, na Itália, algo a mais. Significou que, desta vez, estas eleições não serão seguidas por polêmicas sem fim, mas pelo empenho político da oposição de colocar de lado as divergências e iniciar desde já a trabalhar pelo bem de toda a Itália e de todos os italianos, inclusive os residentes no exterior.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

O último encontro entre Bush e Putin

O presidente americano George W. Bush e o ex-presidente russo Vladimir Putin, encontraram-se, na semana passada, em ocasião do encontro dos líderes da OTAN que se realizou em Bucareste, capital da Romênia. A OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) foi criada logo após a Segunda Guerra Mundial, em 1949, em plena Guerra Fria, com o objetivo de garantir, por meios políticos e militares, a defesa da segurança e liberdade dos seus estados-membros. Hoje em dia, mesmo não existindo mais a Guerra Fria, e, portanto, a divisão bipolar entre Estados Unidos e Rússia, a OTAN continua existindo. Atualmente, fazem parte da Organização, além dos países da Europa e da América do Norte, também estados que, na época da criação da OTAN, integravam a esfera de influência soviética como a República Checa, a Polônia, a Lituânia, Estônia, Eslovênia, Romênia, Hungria, etc. Países que fugiram, num certo sentido, da proteção russa para entrar a fazer parte do grupo do Ocidente. Naturalmente, esta fuga não satisfez a Federação Russa (ex-União Soviética), que, por meio do governo de Vladimir Putin, tentou, nos últimos anos, reconquistar os antigos aliados e retomar relações pacíficas com as regiões que se separaram da Rússia. Entre estas, estão a Ucrânia e a Geórgia, cujo pedido de adesão à OTAN, discutido no último vértice, constituiu um forte motivo de divergência entre os Estados Unidos, a Rússia e os países europeus membros da OTAN. Foi a última “briga” entre Bush e Putin. Ambos estão deixando a presidência das duas superpotências, protagonistas indiscutíveis do final do século XX. Mesmo com a participação do novo presidente russo eleito, Dimitri Medvedev, Putin não quis perder a chance de estar presente no vértice, expressando a sua indignação frente às tentativas americanas de expandir as fronteiras da OTAN até os confins russos. A Rússia se declarou contrária à aceitação da Ucrânia e da Geórgia na OTAN. O pedido de entrada da Ucrânia veio do próprio presidente ucraniano, o democrático Yushchenko que, em 2005, vencendo as eleições, completou, de certa forma, a aproximação ucraniana aos países ocidentais. O seu pedido de adesão recebeu o apoio incondicional de Bush que não escondeu que esta questão era umas das prioridades do vértice. Todavia, os membros europeus da OTAN, perceberam o que esta adesão significaria para a ordem mundial. A aceitação da Ucrânia seria, segundo eles, “uma provocação desnecessária” à Rússia, visto que a Ucrânia e a Geórgia não atendem ainda aos requisitos para a entrada na Organização. Putin pôde respirar aliviado, ao menos por enquanto. A Ucrânia é um país que é importante não somente do ponto de vista geopolítico – ela representa uma zona-tampão entre a Europa e a Rússia -, mas também do ponto de vista econômico, sendo o mais importante mercado para a Rússia, dado que três quartos das exportações de gás natural russo passam pela Ucrânia.

Outro ponto de divergência foi a proposta americana de instalar escudos antimísseis na Polônia e na República Checa para garantir a segurança da Europa contra eventuais ataques do Oriente Médio. Os dois países interessados aceitaram, mas Putin se declarou contra, afirmando que o escudo antimíssil seria uma ameaça à Rússia.

Após a conclusão do vértice da OTAN, Putin recebeu o presidente Bush na localidade de Sochi, no Mar Negro, para uma conversa possivelmente resolutiva dos pontos contenciosos. Quem esperava um final feliz, ficou decepcionado. O acordo não veio, mas nem tudo está perdido. Putin e Bush quiseram deixar abertas as portas do diálogo e prepararam uma declaração final que servirá de base para os novos líderes da Casa Branca e do Kremlin. Apesar das divergências, quiseram deixaram a imagem de dois líderes políticos que - não obstante a tradição histórica que os enquadra como inimigos - conseguiram manter uma relação amigável. A Europa, de outro lado, saiu deste vértice mais unida, orgulhando-se de ter agido unanimemente em favor do equilíbrio mundial, enfrentando a vontade americana que, desta vez, não conseguiu ditar lei.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Muçulmanos na Europa: entre a barbárie e o diálogo

Um curta-metragem produzido na Holanda contra a violência dos integralistas islâmicos criou forte polêmica na Europa e no mundo. No filme, realizado pelo deputado holandês Geert Wilders, evidenciam-se trechos do livro Sagrado do Alcorão que incitam à violência e morte dos infiéis. Aparecem também as cenas trágicas dos atentados das Torres Gêmeas, das cidades de Madri e Londres, além de diálogos com criancinhas muçulmanas já instruídas ao ódio e preparadas ao sacrifício. Diante das tantas ameaças dos integralistas islâmicos, o governo holandês posicionou-se contra a iniciativa do deputado Wilders. Contudo, se podemos nos interrogar se a divulgação do filme foi ou não oportuna, as declarações do deputado Wilders merecem atenção. Ele afirma não estar contra todos os muçulmanos, mas apenas contra aqueles extremistas islâmicos que transformaram o Alcorão em um livro de guerra e ódio. Wilders denunciou o governo holandês por não tomar posição contra o avanço de um processo de islamização da Holanda.

Por ser um país que sempre defendeu a multiculturalidade, a Holanda abriu, sem reservas, num primeiro momento, suas portas aos imigrados muçulmanos provenientes da Indonésia e, num segundo momento, aos do Marrocos e Turquia. A presença dos muçulmanos no país cresceu visivelmente, representando hoje 9% da população total.
A liberdade concedida pelo governo e o atual momento de relativismo cultural dos holandeses permitiram o crescimento da cultura muçulmana no país, que hoje é considerada, pelo deputado Wilders, como uma ameaça cultural para a Holanda. Em 2004, um diretor de cinema, Theo Van Gogh, foi brutalmente morto por um extremista muçulmano por causa de um filme contra a submissão das mulheres muçulmanas. O extremista declarou ter agido sob a orientação da frente fundamentalista internacional que havia sentenciada a morte do holandês. A protagonista do filme, uma ex-muçulmana também ameaçada de morte, refugiou-se nos Estados Unidos, onde vive atualmente. O deputado Geert Wilders e sua família estão na lista negra dos fundamentalistas islâmicos, obrigados a mover-se sob escolta. Vários protestos estão sendo organizados por fundamentalistas do mundo islâmico ameaçando retaliações. Contudo, é interessante sublinhar a posição dos muçulmanos moderados que, diante de tal filme, não somente não acusaram o deputado, mas pediram aos irmãos muçulmanos mais aguerridos de manter a calma. Vários muçulmanos que vivem no Ocidente não concordam com a política de morte dos fundamentalistas e lutam pelo reconhecimento do que julgam ser o verdadeiro islamismo, que seria caracterizado pela fraternidade e liberdade. Infelizmente, porém, a posição dos muçulmanos moderados passa quase que despercebida enquanto o fundamentalismo ocupa as primeiras páginas dos jornais.
Na noite de Páscoa, o papa Bento XVI batizou, entre mais de 50 novos cristãos, também um muçulmano que aderiu ao cristianismo, o que também provocou a ira dos fundamentalistas islâmicos que descrevem o pontífice como “fomentador de ódio e violência”. O neoconvertido se chama Magdi Cristiano Allam, vice-diretor do jornal italiano “Corriere della Sera”. Magdi Allam, também na mira dos integralistas islâmicos, publicou uma carta onde explica as razões de sua conversão ao cristianismo, denunciando as dificuldades que muitos muçulmanos encontram quando decidem pela conversão ao cristianismo. Isto não somente no mundo islâmico, mas, também, no âmbito da própria Igreja Católica que, por medo de retaliações dos muçulmanos contra os cristãos, às vezes se recusa a aceitá-los. A liberdade de conversão (mudança de religião) deveria ser garantida por todos os países e todas as religiões.

Algumas silenciosas iniciativas em favor do diálogo entre as religiões dão esperança. Dentre elas, os recentes colóquios entre Bento XVI e o rei Abdallah, da Arábia Saudita. Aliás, foi a primeira vez que um monarca saudita visitou um papa no Vaticano.Uma visita ao mundo da diplomacia.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Taiwan, a província rebelde

Nas últimas semanas, além da complicada situação das revoltas populares no Tibete, uma nova ameaça de crise internacional despertou a preocupação não somente da China, mas, também, da opinião pública internacional.

No ímpeto de convencer a população a não votar no candidato nacionalista, o opositor e candidato democrático, Frank Hsieh, declarou que a vitória do seu concorrente político - considerado pró-China - teria transformado a ilha de Taiwan em um novo Tibete. Ele defendia - como o presidente Chen Shuibien - a independência de Taiwan da República Popular da China, que até hoje considera o país como uma província rebelde.

Esta ilha, conhecida também com o nome de Ilha Formosa – nome dado pelos portugueses no séc. XVI – encontra-se a cerca de 150 quilômetros do litoral chinês. Originariamente povoada por aborígines, Taiwan foi colonizada pela China no séc. XVI, com a dinastia Qing. Após a vitória do Japão sobre a China, em 1895, Taiwan tornou-se colônia japonesa até 1945, quando voltou à soberania chinesa. Poucos anos depois, em 1949, com a vitória de Mao Zedong, o governo nacionalista de Chiang Kai-shek refugiou-se na ilha, sob a proteção dos Estados Unidos, proclamando Taiwan como a verdadeira e única República da China. Ela foi reconhecida como tal pela maioria dos governos ocidentais até 1971, quando os Estados Unidos decidiram reconhecer a República Popular da China de Mao Zedong e admiti-la na ONU - como um dos cinco membros do seu Conselho de Segurança - no lugar de Taiwan. Hoje, são pouquíssimas as nações que mantêm ainda relações diplomáticas com Taiwan.
De 1949 a 1999, o Partido Nacionalista esteve sempre no poder, governando a população taiwanesa com mão de ferro. Em 2000, pela primeira vez o Partido Democrático Progressista ganhou as eleições, inaugurando no país a democracia. A vitória do Partido Democrático suscitou preocupações na China, já que uma das reivindicações do Partido Democrático sempre foi a proclamação da independência de Taiwan. Desde então, começou um jogo de forças entre os dois poderes. Contudo, o desejo independentista do governo democrático de Taiwan nunca recebeu apoio internacional, aliás, as tentativas neste sentido sempre foram desaconselhadas, principalmente pelos Estados Unidos e outros governos ocidentais que consideram a proposta chinesa: “Uma China – Dois Sistemas”, uma possível resolução pacífica da questão. Tal proposta foi idealizada pelo líder comunista Deng Xiaoping, nos anos 70, em vista da unificação da China. Ele propôs aos territórios de Hong Kong (então colônia britânica), Macau (colônia portuguesa) e Taiwan a reunificação com a pátria mãe garantindo a manutenção do sistema capitalista e do sistema político instalados naquelas regiões. Hong Kong e Macau voltaram à China respectivamente em 1997 e 1999. Taiwan nunca quis aceitar tal proposta.
Os apelos à independência lançados pelo candidato democrático, carro-chefe de sua campanha eleitoral, criaram uma situação de tensão nacional e internacional. Mas os resultados eleitorais, que marcaram a vitória do candidato nacionalista Ma Ying-jeou, mostraram que a população taiwanesa escolheu a paz, evitando o surgimento de novas situações de conflito. A vitória de Ma sobre o candidato democrático (58% de votos contra os 42% do Partido Democrático) não deixa dúvida alguma sobre a vontade da população. Os taiwaneses escolheram um candidato que, ao invés de prometer a independência de Taiwan, se comprometeu a trabalhar para mudar radicalmente as relações com a China, transformando-as em relações pacíficas. Isto, além de acabar com o isolamento político e econômico de Taiwan em relação ao resto da Ásia, poderá favorecer o aumento das relações comerciais com a vizinha China. Os 23 milhões de taiwaneses estão certamente de parabéns por terem evitado novas tensões na Ásia. Venceu a opção pelo realismo, certamente mais acertada no momento que a aventura perigosa proposta pelo candidato derrotado Frank Hsieh. Os mísseis de Pequim apontados para Taiwan felizmente podem ser recolhidos.

quarta-feira, 19 de março de 2008

A China e o Tibete

Mais uma vez a China é protagonista de manchetes internacionais. Poucos meses antes da abertura dos Jogos Olímpicos, o governo chinês tem que enfrentar uma nova crise política, referente às suas relações com a província autônoma do Tibete.

Tudo começou nos primeiros dias de março, quando um grupo de centenas de exilados tibetanos na Índia anunciou que, no dia 10 de março, começariam uma marcha até a fronteira com o Tibete. Os motivos alegados eram: lutar em favor de sua independência e lembrar as vítimas da repressão sangrenta de 1959 atuada pelo governo chinês no Tibete. Além disso, eles denunciaram a intenção da China de usar os Jogos Olímpicos para ratificar, aos olhos estrangeiros, sua soberania sobre as minorias étnicas chinesas, de modo especial sobre o Tibete. Os atletas tibetanos pediram para desfilar com a bandeira tibetana, na cerimônia de abertura dos Jogos, mas o governo chinês não o permitiu. Contemporaneamente, em Lhasa, capital da província tibetana, um grupo de monges budistas decidiu liderar um protesto pacífico alegando como motivo a comemoração das vítimas de 1959. Outros grupos de tibetanos exilados no Nepal, estado vizinho do Tibete, organizaram protestos similares. Todas estas iniciativas, inspiradas nos princípios da não-violência de Ghandi e nos princípios pacíficos do budismo foram logo reprimidas. Na Índia, o exército governamental prendeu os ativistas tibetanos sob a acusação de violarem os acordos internacionais que prevêem a aceitação dos tibetanos na Índia desde que estes não organizem atividades políticas contra a China. No Tibete, o exército chinês, presente maciçamente desde os anos 50, providenciou o fim dos protestos de monges e civis tibetanos. O governo chinês afirmou que “apenas” 10 pessoas morreram. Os tibetanos exilados falam em centenas. Mesmo sob ameaça de repressão armada, os protestos não param, colocando o governo chinês em uma situação bastante complicada.

O sofrimento do povo tibetano, exilado ou não, começou muito tempo atrás. Antigamente, o Tibete ocupava um terço do território chinês, enquanto sua população era somente 0,5% da população total. Em 753 a.C. o budismo entrou no Tibete e se tornou a religião oficial. Ao longo de sua história foi invadido por muitos povos, dos mongóis de Gengis Kahn às dinastias chinesas. No período colonial, a Inglaterra tentou invadir o Tibete querendo expandir sua influência a partir da Índia. O território tibetano faz fronteira com a Índia e o Nepal, constituindo desde antigamente um território estrategicamente importante para a defesa do território chinês. Quando Mao Zedong subiu ao poder, decidiu liberar o seu país de qualquer influência imperialista. Isto incluiu liberar também o Tibete. Em 1951, aconteceu a incorporação forçada do Tibete à República Popular da China, chamada pelo governo de Pequim de “pacífica liberação”. Em 1959, os tibetanos se rebelaram a tal anexação. Milhares de tibetanos morreram, outros fugiram, refugiando-se nos estados vizinhos. Dalai Lama também foi obrigado a fugir e vive até hoje no exílio. Durante a Revolução Cultural, como no resto da China, todos os templos foram destruídos. Até hoje não é permitido o ensinamento da língua e cultura tibetana. Para os comunistas de ontem e de hoje, o Tibete representa um território estratégico do ponto de vista fronteiriço e econômico, pelas riquezas minerais de ouro e urânio. O governo de Pequim enviou milhões de chineses para “colonizar” o Tibete, alegando querer ajudar na sua modernização e desenvolvimento. Se, de um lado, a situação econômica do Tibete melhorou de maneira significativa, de outro lado, a cultura tibetana está à beira da extinção. No coração do povo tibetano, ela ainda está viva, e os protestos destes dias o demonstram. O governo chinês decidiu fechar o Tibete para os estrangeiros, e prefere o uso da força para restabelecer uma harmonia aparente. Lembramos que o atual presidente chinês, Hu Jintao foi aquele que aplicou a lei marcial em 1989, em ocasião das revoltas tibetanas contra o governo central. Dalai Lama, acusado pelas autoridades chinesas de ser o criador dos atuais protestos, afirma não ter aprovado nenhuma manifestação e reitera o uso do diálogo para resolver o impasse. Tomara que, desta vez, diante dos protestos que não param de ganhar força, a China mude de atitude e aprenda a trocar a força das armas pela força do diálogo.